QUEDA NA TORRE VERMELHA



O fogo se espalhou por todo o cômodo, as chamas pareciam ter vida própria e consumiam toda aquela sala localizada na torre mais alta do castelo conhecido como casa das labaredas, ou “labaredariuns” pelos membros da ordem; mestre e aluno frente a frente em uma batalha da qual somente um poderia sair vitorioso; depois de tantas tarefas, tantas batalhas e tantas missões, juntos, agora era como se houvesse um abismo de distância entre os dois. Donovam ergueu uma das mãos na direção de seu melhor discípulo, mas era hora de acabar com ele, pois não ouvia mais seus conselhos e queria tomar suas decisões sem a permissão do mentor.
O calor chegou à beira do insuportável, e parte da sala ameaçava desabar; Alam estava suando pela primeira vez em quase dez anos e suas roupas estavam por incendiar-se, além do mais ele já sabia que não tinha poder suficiente para vencer seu mestre; as chamas lambiam de forma áspera todo o corpo do jovem rapaz como nunca antes; era como se o fogo estivesse rejeitando-o depois de tanto tempo juntos, passaram muito tempo como amantes, o fogo e ele; depois que aprendera a domar a vontade natural do elemento, Alam nunca tinha perdido um confronto sequer.
Havia entrado muito cedo em um universo dominado por velhos encharcados de um conhecimento mortal capaz de incinerar pessoas e fazer absolutamente tudo por mais e mais poder, era a única coisa que verdadeiramente importava para o círculo interno, e ele durante muito tempo tinha se dobrado à vontade do círculo menor, a “vontade dos antigos”, como eles costumavam chamar. O poder costuma cegar as pessoas e a magia costumava queimar todos os que não tivessem força suficiente para retê-la em suas mãos.
Estava muito quente, e o aprendiz não conseguia mais se concentrar, pensou estar desmaiando, e para não morrer ali tentou invocar algum ritual que o defendesse, mas era muito tarde. Donovam parecia um fantasma dançando no meio das chamas, ora estava à esquerda e ora na direita, sabia que seu mestre era um dos melhores do continente e que só não fazia parte da elite dos vermelhos porque não gostava da burocracia que regrava a elite dos magos do fogo.
Com um movimento sutil das mãos o professor convocou o fogo a lutar por ele, e uma grande explosão foi vista nos arredores do castelo. Os estilhaços voaram para todas as partes e o jovem foi jogado ao chão quente, agora era definitivo; a chama interior de seu mestre havia sobrepujado a sua e com isso domado os elementais que estavam ali; dos olhos de Alam emanavam como que pequenas labaredas, mas na verdade era o reflexo das chamas ao redor, isso ocorria sempre que a fúria dentro dele tinha excedido sua racionalidade, agora não era mais sua mente e sim o espírito do fogo dentro dele que comandaria as ações.
Era tudo que Donovam queria, porque derrotar seu discípulo seria muito fácil, mas lutar contra o instinto do espírito das chamas que existia dentro dele seria muito mais interessante; era seu projeto particular; quando escolheu discipular aquele jovem, tudo já fazia parte de um plano para conseguir trazer para dentro do corpo do então menino uma criatura que só havia sido vista pelos membros mais antigos da ordem e habitava na imaginação e nos livros de estudo mágico para os mais jovens. Um espírito do fogo.
Do lado de fora do prédio o corpo de bombeiros chegou em tempo recorde, como costumava ser, era um castelo magnífico construído com um único propósito de ocultar a ordem dos magos vermelhos, que há décadas estava agindo na cidade; o Canadá era um dos muitos lugares do mundo onde a ordem achou condições totalmente favoráveis para seu desenvolvimento e instalação das escolas de magia. O Labaredáriun no princípio foi um projeto muito ambicioso de um então, à época, discípulo chamado Donovam Draek, jovem brasileiro de ascendência canadense, estudante de engenharia que mais tarde viria a ter dupla nacionalidade e seria um dos maiores empresários do ramo da engenharia e arquitetura na província de Ontário, e, dedicado ao estudo da metafísica do fogo desde muito cedo, como poucos naquele país; os antigos o consideravam um notável, porque tinha concebido sozinho um projeto de proporções titânicas; que previa a construção do castelo com tudo o que se tinha direito, câmaras secretas, salas de estudos especiais reservadas às artes mágicas, bibliotecas, escritórios, laboratórios, salões de conferência e uma infinidade de outros ambientes. Havia estudado por dois anos inteiros as plantas de vários castelos em vários países da Europa, mas em sua cabeça o prédio que abrigaria todos os membros do fogo na cidade de Ottawa deveria ser algo que chamasse muita atenção, principalmente de quem não conhecesse a real função do lugar; deveria ser visto quase como uma atração turística da localidade.
Depois de concebido o projeto inicial que foi finalizado com base no Castelo de Schwerin, na Alemanha, Donovam o levou ao conhecimento de seu mestre, que por sua vez levou ao conhecimento da assembléia dos mais antigos; as reações foram das mais variadas, alguns concordaram e outros relutaram, teve de ser convocada uma reunião com membros de outros países, até que finalmente por uma margem pequena em uma votação batizada de “O conclave do templo”, ficou estabelecido que se faria a construção de tal estrutura. Todo este processo de edificação durou cerca de cinco anos e custou por volta de noventa e oito milhões de dólares, mas rendeu a Donovam um lugar de destaque entre aqueles que antes pensavam que ele nunca passaria pela “prova de fogo”, o desafio inicial para os principiantes nas artes da magia, mas Donovam tinha aprendido muito com seu, então, influente tutor que respondia pelo nome de Vesúvio, uma espécie de pseudônimo místico obviamente inspirado no vulcão europeu que destruiu as cidades romanas de Pompéia e Herculano em 79 d.C. Uma das exigências características dos mestres do círculo menor era o fato de que todos os seus integrantes adotavam e passavam a responder por nomes de vulcões.
As chamas aqueceram-se ainda mais com o comando verbal de Alam, e seu mestre chegou a se desconcentrar por um momento, mas foi passageiro, era quase que uma competição para ver quem seria incinerado primeiro, mas com a passagem do tempo o professor adquirira novas técnicas que poucos possuíam; uma delas era a grande resistência física ao calor e as chamas; o corpo do professor alcançou um grau de resistência tão elevado que era considerado pelos demais membros como sendo um elemental; assim são conhecidos todos os membros da ordem com grande resistência às chamas. Alam nunca tinha visto aquilo, e pasmo presenciou o momento exato em que seu mestre deixou de ser uma pessoa para torna-se uma força da natureza.
__ Sinta as Chamas, Alam! – gritou com uma voz de trovão. _ Você não pode me desobedecer, não há como vencer.
Alam estava perdendo as forças, pois antes do combate tinha sido levado ao limite em uma missão intelectual, mente e corpo não se comunicavam como deveriam e embora tivesse preparado para situações extremas ainda estava apenas no terceiro círculo de estudo, como, pois, poderia vencer aquele que lhe ensinou tudo o que sabia.
Durante o tempo em que ficou sob o comando da ordem na cidade de Ottawa, Alam tinha ocupado um cargo de destaque numa grande empresa local, empresa essa com ramificações políticas, econômicas e até culturais sobre toda a cidade; com isso ele era uma voz a ser ouvida em todas as decisões que fossem tomadas nessas áreas; por ter uma habilidade muito afiada em persuasão geralmente conseguia desvirtuar as coisas de modo que atendesse aos interesses dos magos vermelhos, rapidamente o “aluno de Donovam” ganhava prestígio a cada dia. Era como a continuação de uma linhagem, o mestre que fora um grande aluno havia escolhido um excelente aluno para ser um grande mestre.
Alam foi o responsável por viabilizar a união das diferentes casas de magia do fogo existentes na cidade formando a segunda mesa de poder; uma assembléia com os líderes das diferentes escolas do fogo que se reportaria primeiramente ao conselho dos anciões e em seguida aos seus superiores diretos. Isso serviu para consolidar a superioridade e supremacia dos mestres das chamas em relação aos outros grupos de magia que sorrateiramente foram caçados e quase totalmente extintos na cidade; pouco a pouco os aprendizes das magias que enveredavam pelos caminhos da Terra, Água, Ar, Luz e Mente, foram perseguidos, aprisionados ou assassinados, poucos continuaram a residir em Ottawa e estes se tornaram fugitivos, escondendo-se sempre do crescente número de jovem magos vermelhos que vasculhavam a cidade. Em pouco tempo Alam tornou-se um herói entre os mais novos e uma espécie de exemplo para os que desejavam ganhar fortuna.
“Onde estava sua espada?” _ Ele pensava em meio àquela tempestade flamejante; Donovam tinha poderes superiores aos seus, mas talvez em um confronto corpo a corpo pudesse tirar vantagem, sempre costumava andar com uma espada japonesa; uma Katâna, aonde quer que fosse sempre levava a arma, pois também era um exímio manejador. Havia desenvolvido um estilo peculiar, ou seja, um caminho próprio para ele, durante anos juntamente com o estudo da magia primordial do fogo, Alam dedicou-se também ao aprendizado das artes japonesas voltadas para as guerras com uso das armas brancas, e até mesmo um pouco de técnicas de defesa pessoal das quais preferia o Krav magá que aprendeu quando viajou a Israel como parte de seu aprendizado histórico e em missão para seu mestre, permanecendo dois anos lá. Suas habilidades marciais eram invejadas pelos membros das casas de magia rivais; seu nome passou a ser respeitado por alguns magos, embora fosse ainda muito jovem; com apenas trinta e um anos.
Os bombeiros começaram a entrar no prédio, mas as explosões estavam acontecendo em uma das torres mais altas do castelo. Alam usava suas habilidades de forma poderosa e surpreendia de certa forma ao seu tutor, fogo contra fogo, eles se enfrentavam conjurando magias, mas o jovem mago estava exausto; afinal, materializar forças da natureza impondo sua vontade sobre as leis físicas que regem nosso mundo é algo que pouquíssimas pessoas conseguem fazer, e somente com muito estudo, dedicação total e completa, além é claro de ser de um desgaste brutal, porque utilizava as forças do próprio corpo para fazer com que as energias passassem pela barreira que protege nossa esfera física, isso leva as pessoas que praticam as artes mágicas a um estado de extremo cansaço; e era exatamente isso que vinha ocorrendo com Alam naquele momento.
Donovam sabia naquela noite que travaria um combate violentíssimo contra seu pupilo, mas de antemão já tinha preparado tudo, como costumava fazer sempre, e enviou seu sucessor em uma caçada forjada, sabia que ele se empenharia ao máximo para realizar a tarefa e ficaria fraco e debilitado para o confronto final. Outro dos muitos dons admirados em Donovam Draek por todos que o conheciam era sua capacidade de criar situações que o favorecessem e até mesmo de tornar situações aparentemente adversas em cenas de seu interesse, sempre tinha sido um exímio estrategista, mas nunca rejeitava os combates nem contra os membros das outras casas do fogo, nem contra os das outras casas de magia nem contra seus comandantes ou comandados. Ele era o líder que todos os novatos gostariam de ter, alguns até dariam suas vidas por ele, e ele daria a vida por sua causa, mas o escolhido para aprender e partilhar do conhecimento havia sido Alam que por algum forte motivo estava se rebelando contra seu mestre.
Jogado pelas chamas Alam chocou-se contra uma grande porta que se abriu dando passagem para um salão onde uns poucos alunos estavam de forma organizada nas duas laterais do grandioso cômodo preparando-se para deixar o prédio; todos eles se assustaram quando Alam passou, com o corpo em chamas chocando-se com a parede do outro lado. Alguns deles começaram a gritar pelo nome do jovem para que se levantasse, mas quando viram Donovam saindo pela porta de onde o outro também surgira, todos ficaram quietos em respeito ao mestre; nenhum deles queria ser rotulado como traidor por manifestar simpatia pelo mais novo inimigo da ordem.
Alam ergueu-se devagar e viu os aprendizes olhando-o de forma bastante apreensiva, e com um pouco de força de vontade sintetizou seus pensamentos em um único fluxo, ordenando mentalmente que o fogo rompesse a barreira do mundo físico e surgisse para defendê-lo; mas antes de começar a materialização, ele foi atingido por outra rajada incandescente de seu tutor enfurecido e repentinamente perdeu os sentidos caindo de forma inerte no chão, açoitado pelas chamas.
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Algum tempo depois, seus olhos se abriram; estava se afogando, ainda muito sem forças começou a se debater de forma desesperada para tentar manter-se vivo; enxergou ao longe algo que parecia ser a margem do riacho onde seu corpo estava; e lutando ainda mais nadou para lá, sabia onde estava, mas não exatamente. Atrás do castelo Labaredárium passava um rio que levava para as florestas longe da cidade e desembocando no Rio Ottawa que seguia para fora da província de Ontário. Era o rio Rideau, e estava furioso com suas águas revoltas e geladas, quanto mais ele adentrava nas florestas mais violento ficava a força das águas, seu corpo era jogado de um lado para o outro e se chocava constantemente contra as pedras, enquanto isso ele lutava para não se deixar afundar, mas a fúria do rio era muito superior às pequenas forças de seu corpo mortal e gravemente ferido.
Depois de quase meia hora lutando Alam foi arremessado para as pedras perto da margem e conseguiu segurar-se a um galho de árvore que estava para dentro do riacho, juntando o resquício de forças físicas que ainda lhe sobraram ele se arrastou para fora das águas até a cintura desmaiando exausto em seguida.

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